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Comunidade

Esclarecimento da Comunidade Meshtastic Portugal sobre o vídeo relativo à alegada interligação com MeshCore

Esclarecimento da Comunidade Meshtastic Portugal sobre o vídeo relativo a uma alegada interligação entre Meshtastic e MeshCore, clarificando o papel dos curadores, a inexistência de qualquer bridge oficial e várias conclusões apresentadas como factos sem demonstração técnica suficiente.

CC
Curadoria Curadores Comunidade Meshtastic Portugal
4 outubro 2026 10 min de leitura

A propósito de um vídeo recentemente publicado sobre uma alegada retransmissão de mensagens da rede Meshtastic para a rede MeshCore, e tendo em conta que nesse vídeo são feitas referências diretas à Comunidade Meshtastic Portugal, aos seus curadores e a pessoas que lhe são associadas, entendemos que chegou o momento de esclarecer alguns pontos. Não porque consideremos particularmente útil alimentar rivalidades entre projetos, muito menos entre comunidades que partilham interesses técnicos semelhantes, mas porque há uma diferença importante entre demonstrar um fenómeno técnico, interpretar esse fenómeno e construir uma narrativa em torno dele.

E essa diferença, neste caso, merece ser esclarecida. Comecemos pelo mais simples.

Não existe qualquer interligação oficial entre a Comunidade Meshtastic Portugal e a rede MeshCore. A Comunidade Meshtastic Portugal não criou, não opera, não mantém e não autorizou qualquer sistema destinado a encaminhar o canal público LongFast para MeshCore. Se existe atualmente uma bridge a realizar esse encaminhamento, essa bridge é uma implementação de terceiros.

Isto é importante porque o vídeo é apresentado desde o primeiro momento como se estivéssemos perante algo particularmente escandaloso, chegando mesmo a ser utilizada repetidamente a expressão “cúmulo da vergonha” para descrever o facto de mensagens originadas em Meshtastic aparecerem posteriormente numa rede MeshCore.

É uma excelente forma de criar um título chamativo, não é, contudo, uma conclusão técnica.

A utilização de expressões como “vergonha”, “muito más notícias” ou a ideia de que uma rede está a “usar” outra acrescenta dramatismo ao vídeo, mas não acrescenta qualquer informação à análise do problema.

No final, aquilo que é mostrado é bastante mais simples: alguém terá desenvolvido um mecanismo capaz de receber determinadas mensagens provenientes do ecossistema Meshtastic e de as retransmitir para um canal da rede MeshCore. Só isso.

Uma bridge entre dois sistemas não significa que um sistema dependa do outro. Não significa que uma rede tenha falhado. Não significa que uma tecnologia esteja “a aproveitar-se” de outra. Significa que alguém escreveu software ou configurou infraestrutura para copiar informação de um lado para o outro.

Seria igualmente absurdo concluir que APRS “depende” de Telegram porque alguém criou um bot que encaminha mensagens APRS para um grupo Telegram, ou que o Matrix “precisa” do Discord porque alguém criou uma bridge entre ambos.

Curiosamente, o próprio vídeo acaba por reconhecer que Meshtastic e MeshCore são sistemas diferentes, com características diferentes e com vantagens distintas.

Nesse ponto estamos perfeitamente de acordo.

É precisamente por isso que não percebemos a necessidade de transformar uma eventual bridge criada por um terceiro numa espécie de competição pública sobre qual rede “funciona melhor”. A demonstração apresentada no vídeo é interessante e, até determinado ponto, tecnicamente relevante.

É mostrada uma mensagem enviada através de Meshtastic, visível posteriormente através do ecossistema MQTT, sendo depois observado tráfego num determinado canal privado MeshCore cuja dimensão e temporização aparentam corresponder às mensagens anteriormente transmitidas. Isto constitui um indício bastante razoável da existência de algum tipo de encaminhamento.

Mas é importante não confundir aquilo que a demonstração permite observar com aquilo que posteriormente se afirma, uma vez que a própria demonstração não identifica o responsável pela bridge, não mostra o servidor onde esta corre, não mostra o código, não demonstra se as mensagens são obtidas diretamente através de RF, MQTT, API ou qualquer outro mecanismo e não demonstra sequer a arquitetura utilizada para realizar a interligação.

E o próprio autor reconhece que não consegue ler o conteúdo do canal MeshCore em questão, realizando a correlação essencialmente através de horários, tamanhos dos pacotes e comportamento observado.

Há, portanto, uma diferença considerável entre dizer “parece existir uma bridge” e dizer “sabemos quem a criou, porque a criou e com que intenção”. É precisamente nessa diferença que o vídeo começa a afastar-se da análise técnica.

Depois da demonstração, são feitas acusações relativamente a uma pessoa supostamente localizada na zona de Cantanhede, são referidos alegados ataques anteriores, tentativas de inundação de rede e outros comportamentos, passando o discurso gradualmente de evidência observável para acusações pessoais.

Mais à frente é inclusive sugerida a possível conivência de outras pessoas, sendo imediatamente reconhecido que essa conivência não pode ser provada.

É difícil não achar curioso que se tenha optado por publicar quase meia hora de vídeo, com acusações, suspeitas e apelos públicos à intervenção dos curadores, sem que tenha existido qualquer contacto prévio connosco para perguntar uma coisa bastante elementar:

“Sabem o que é isto?”

Teria sido uma pergunta simples. Mas talvez menos interessante para um título. No entanto, bastante mais útil para perceber o que realmente estava a acontecer.

A Comunidade Meshtastic Portugal teria respondido exatamente aquilo que está a responder agora: não operamos qualquer bridge oficial para MeshCore e não temos conhecimento de qualquer decisão comunitária nesse sentido.

Se existisse uma preocupação genuína em resolver o problema antes de produzir conteúdo sobre ele, os nossos canais de contacto estão disponíveis e são públicos.

Não fomos contactados.

Em vez disso, fomos informados através de um vídeo onde, simultaneamente, se afirma que os curadores “podem parar isto”. Também aqui importa esclarecer uma ideia errada.

Não existe um botão vermelho numa sala de controlo que permita desligar utilizadores, bloquear rádios ou impedir terceiros de receber sinais transmitidos pelo espectro. O Meshtastic é uma tecnologia descentralizada.

Os curadores ajudam a organizar informação, produzir documentação, promover boas práticas, manter determinados serviços comunitários e facilitar a coordenação entre utilizadores. Não controlamos equipamentos particulares ou aquilo que terceiros fazem com mensagens que recebem. E naturalmente não controlam software que possa estar a correr num computador, servidor ou rádio pertencente a outra pessoa.

Podemos contactar alguém, explicar porque determinada utilização poderá não ser recomendável ou até colaborar na identificação de uma implementação problemática. O que não podemos fazer é exercer um controlo técnico que simplesmente não existe.

Esta distinção é particularmente importante quando se fala do canal LongFast. LongFast é um canal público.

As mensagens transmitidas nesse canal podem ser recebidas por qualquer equipamento devidamente configurado dentro de alcance RF e, dependendo da configuração utilizada, podem igualmente surgir através da infraestrutura MQTT.

A partir do momento em que uma mensagem é recebida por um terceiro, não existe qualquer mecanismo mágico que impeça esse terceiro de a processar com software próprio e isso, por si só, não significa que todas as utilizações sejam necessariamente corretas ou desejáveis. Significa apenas que a arquitetura da tecnologia deve ser compreendida antes de se atribuírem poderes ou responsabilidades a uma comunidade que não os possui.

Se alguém estiver a encaminhar indiscriminadamente grandes quantidades de mensagens LongFast para MeshCore e isso estiver a prejudicar significativamente essa rede, consideramos perfeitamente legítimo que os seus utilizadores levantem o problema. O RF é um recurso partilhado e o LoRa não possui capacidade infinita.

Uma bridge mal configurada pode duplicar tráfego, criar loops, aumentar airtime e produzir efeitos que provavelmente não foram considerados por quem a implementou. Se for esse o caso, estamos disponíveis para ajudar.

Mas ajudar começa por identificar o problema corretamente. Não por decidir primeiro quem é o culpado e procurar depois elementos que confirmem essa conclusão.

Se os responsáveis ou utilizadores da rede MeshCore possuírem dados concretos sobre a origem dessa bridge, terão toda a nossa disponibilidade para os analisar. Logs, timestamps, identificadores, comportamento observado, endpoints utilizados, tópicos MQTT ou qualquer outro elemento técnico são muito mais úteis do que especulação.

Aliás, se o objetivo fosse realmente fazer cessar a situação, essa teria provavelmente sido a abordagem mais rápida. Contactar-nos, partilhar a informação, analisar em conjunto, tentar identificar a origem. Resolver. Não aconteceu.

Foi preferível produzir primeiro o vídeo.

Cada um escolhe a estratégia que considera mais adequada. Nós preferimos começar pelos dados.

Também nos parece necessário corrigir outra ideia transmitida no vídeo: a de que a utilização de MQTT de alguma forma diminui o valor da rede Meshtastic. O MQTT é uma funcionalidade do próprio ecossistema Meshtastic. Não é um segredo, não é um remendo e não é uma forma de esconder limitações da tecnologia. É uma opção arquitetural.

Permite integrar regiões, transportar informação através de redes IP, alimentar mapas, desenvolver automações, criar serviços externos e experimentar integrações que de outro modo seriam difíceis de concretizar. Pode ser utilizado. Pode não ser utilizado. Pode inclusivamente ser completamente desligado. Existirem equipamentos Meshtastic ligados por MQTT não torna todos os restantes dependentes da Internet.

Tal como existirem repetidores MeshCore ligados entre si exclusivamente por RF não torna essa arquitetura automaticamente superior para todos os cenários.

São escolhas diferentes.

E é precisamente essa diversidade que torna estes projetos interessantes.

Também não vemos qualquer utilidade em transformar discussões sobre 433 MHz e 868 MHz em proclamações absolutas sobre qual das bandas é “melhor”. Propagação radioelétrica não funciona dessa forma.

Potência de transmissão, frequência, sensibilidade, antenas, altura, ruído local, largura de banda, spreading factor, topografia, ambiente urbano e inúmeros outros fatores influenciam qualquer ligação.

Há cenários em que 433 MHz apresentará vantagens. Há cenários em que 868 MHz apresentará vantagens.

Há também cenários em que uma instalação bem feita com menos potência terá resultados muito superiores a uma instalação deficiente com potência significativamente superior. É engenharia de rádio. Não é futebol.

Há pessoas na Comunidade Meshtastic Portugal que experimentam outras tecnologias. Há utilizadores que acompanham MeshCore. Há utilizadores de APRS, LoRaWAN, Reticulum, e muitas outras plataformas e isso é saudável.

O que não consideramos saudável é transformar diferenças tecnológicas em rivalidades pessoais, muito menos construir a imagem de que existe uma guerra entre comunidades quando a esmagadora maioria das pessoas está simplesmente interessada em experimentar rádio e tecnologia.

Se alguém criou uma bridge entre Meshtastic e MeshCore, queremos perceber como funciona. Se estiver bem implementada e não estiver a prejudicar ninguém, é uma experiência técnica. Se estiver mal implementada e estiver a causar impacto significativo noutra rede, deve ser corrigida ou desligada.

É realmente tão simples quanto isso.

Não precisamos de chamar a isso “vergonha”, insinuar cumplicidades ou procurar vilões. E certamente não precisamos de transformar uma bridge num referendo público sobre qual tecnologia é superior.

Talvez isso gere menos comentários. Mas provavelmente resolve mais problemas.

Por fim, queremos deixar uma mensagem aos responsáveis e utilizadores da comunidade MeshCore em Portugal. Da nossa parte não existe qualquer intenção de prejudicar a vossa rede. Não existe qualquer bridge oficial operada pela Comunidade Meshtastic Portugal.

Se estiver a ocorrer encaminhamento indevido e conseguirem facultar-nos informação técnica que possa ajudar a identificar a respetiva origem, estamos disponíveis para colaborar, teremos todo o gosto em resolver um problema técnico como aquilo que ele é: um problema técnico.

Quanto ao restante ruído, títulos, dramatização e insinuações, deixaremos que cada pessoa tire as suas próprias conclusões.

A Comunidade Meshtastic Portugal continuará concentrada no trabalho que tem desenvolvido: melhorar documentação, apoiar novos utilizadores, promover boas práticas, disponibilizar infraestrutura comunitária e contribuir para que mais pessoas descubram e experimentem comunicações descentralizadas.

É menos espetacular do que um título sobre o “cúmulo da vergonha”.

Mas dá bastante mais trabalho.

A equipa de Curadores da Comunidade Meshtastic Portugal